texto de Renan Guerra
1982, em algum lugar do deserto do Atacama, um grupo de mulheres trans, travestis e drag queens orbita uma comunidade de mineiros. Essas mulheres e profissionais se apresentam e reúnem uma parte dos moradores da comunidade em sua própria casa, chamada Alaska House, algo entre um bar e uma taberna, meio que não bem definido durante a história. E assim é com outros pormenores do filme de Diego Céspedes: nem tudo é definido e explicado em “O Olhar Misterioso do Flamingo” (“La Misteriosa Mirada Del Flamenco”, 2025), uma profução chilena (em colaboração com Alemanha, Belgica, Espanha e França) que se desenha de forma bastante autoral, em uma espécie de coming of age oitentista feito sob a égide queer.
Nesse cenário seco e empoeirado, somos apresentados a Lidia, de 11 anos, menina que cresce em uma família queer liderada pela matriarca Mãe Jiboia (Boa no original) e por Flamingo, definida como a mãe de Lidia. Esse microcosmo se desestrutura quando uma doença misteriosa começa a se espalhar, supostamente transmitida através de um único olhar entre dois homens ou um homem e uma travesti que se apaixonam. Obviamente a comunidade culpabiliza a família de Lidia pelos doentes. E assim os homens locais decidem que é “de bem” controlar os corpos das mulheres trans que ali vivem.

Escolhido como representante chileno na categoria de Melhor Filme Internacional do último Oscar, “O Olhar Misterioso do Flamingo” foi premiado com o Un Certain Regard do Festival Internacional de Cannes, coroando uma bem-sucedida carreira por festivais e competições. Chegando agora aos cinemas brasileiros, com distribuição da Imovision, o longa pede a nossa atenção ao nos apresentar um criador jovem – Céspedes tem 31 anos – e inventivo, com uma interessante maturidade narrativa. E aqui vocês podem dizer “ah mas x e y da nouvelle vague começaram a filmar antes dos 20 anos e fizeram obras-primas antes dos 25”, e ai rebatemos entendendo o contexto de que falamos: Céspedes escreve sobre corpos marginalizados no extremo sul da América Latina, e tudo isso conta muito nessa corrida.
Voltando ao universo ficcional, “O Olhar Misterioso do Flamingo” não se atém ao verossímil, optando por caminhos quase fabulares: suas mulheres têm nomes de animais, a criança perambula pelo deserto e a epidemia que se alastra é narrada a partir de uma oralidade que constroi lendas, mitologias e, claro, estigmas. A epidemia de HIV/AIDS nunca é nomeada, ela surge nesse desconhecimento da comunidade – e isso é corroborado pela informação factual de que a AIDS só passou a ser registrada, cuidada e pesquisada a partir de 1984 no Chile. Desinformação, medo e preconceito se misturam a crendices e disse-me-disse, em uma narrativa que, obviamente, mobiliza a pequena protagonista Lidia.
O bonito do filme de Diego Céspedes é que, apesar da violência, da dor e das tensões, essa é uma história que se constroi a partir da logística familiar. Partindo do olhar infantil, temos uma perspectiva de quem percebe o mundo com mais liberdade e fluidez. E mesmo assim o longa não suaviza os temas, não doura a pílula: a violência contra esses corpos dissidentes se apresenta de forma repetida, bem como a fragilização dos corpos marcados pela AIDS. De todo modo, não ficamos presos a uma fetichização desse sofrimento, apesar de bastante gráfico, ele segue como propulsor de uma narrativa em torno dessa comunidade. Se essas personagens são atacadas, elas revidam; se elas sofrem, elas se unem, cuidam umas das outras e insistem no cuidado mútuo. Desse flerte com o realismo fantástico acaba surgindo um universo que reverbera repetidas narrativas sobre a comunidade trans: reunidas e unidas, elas se auxiliam, elas por elas.
“O Olhar Misterioso do Flamingo” trafega por inúmeros gêneros – coming of age, drama familiar, faroeste travesti – desenhando-se de forma interessantemente singular. Céspedes faz acenos a diferentes diretores queer que vieram antes – é impossível não criar conexões com o Almodóvar dos tempos iniciais ou ao desprendimento de John Waters -, porém segue sua própria estrada, criando um filme que consegue ir do humor a tensão, do melodrama ao singelo, conseguindo assim nos cativar no meio dessa jornada.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.

